—Pelo que você diz, o sofrimento não acaba, a experiência continua sendo dolorosa. Eu gostaria que fosse o fim de todo sofrimento, de verdade.

A iluminação abre a porta para o fim do sofrimento desnecessário. O restante, a metade desagradável da dualidade, nós enfrentamos como adultos, de acordo com nossas virtudes, fraquezas, grau de experiência e maturidade. A iluminação não torna a dualidade não-dual nem menos dual. Isso é uma fantasia religiosa ou de New Age.

—Vejo que há professores que dizem que o sofrimento termina para sempre, como o próprio John Wheeler. Ele é bastante enfático: é o fim do sofrimento.

É necessário distinguir entre dois tipos de sofrimento. Há o sofrimento inevitável, que é parte integral da dualidade, e o sofrimento desnecessário, que surge de uma personalidade falsa devido à fraqueza psíquica, desatenção, ignorância e imaturidade. Na prática, precisamos enxergar essas distinções em nossa própria psique, totalmente, sem exceções—sem pontos cegos. Ignorar essa distinção e esse grau de consciência traz um problema que não estamos tentando resolver.

—Ou como o título do seu livro, “Nada Mais de Errado.” Mas você também me dá a impressão de que, de alguma forma, o sofrimento continua, pelo que diz aqui. Então ainda haveria coisas que me parecem “erradas”.

A dualidade é chamada de dualidade porque metade dela é dor: dor emocional, física e mental. Estar em paz significa abraçar a totalidade da dualidade, não apenas a metade que gostamos. Maturidade psicológica é um fator. Ou crescemos voluntária e conscientemente, ou o universo encontra uma maneira de nos dar umas belas palmadas no traseiro.

—Maharaj parece sugerir que é o fim do sofrimento. Talvez o Buda também.

A morte de um ente querido, um acidente ou uma guerra é doloroso para qualquer ser humano normal. A noção de que pessoas iluminadas se tornam como vegetais é ingênua. Sem distinguir os tipos de sofrimento, há confusão. Confiar em livros traduzidos de pessoas que já morreram é um problema conhecido nos círculos espirituais. Não sabemos o que disseram, para quem e em que contexto. As chances de estarmos acreditando em uma mentira são altas. Fale com pessoas que estão vivas e então tente entender as coisas olhando para dentro, ouvindo sua intuição e compreendendo sua dor. Deixe os mortos e suas traduções mortas de lado.

—Há também professores que dizem que é preciso fazer “trabalho de sombra”, um tipo de trabalho terapêutico, após a iluminação. Como assim?

No meu modelo, na maioria dos casos há dois eventos: Iluminação e Realização. Há um processo para a maioria das pessoas após a Iluminação em que resíduos de ignorância e maus hábitos precisam de uma boa escovada, sabão e um balde. É por isso que o subtítulo do meu livro é “um manual para zeladores espirituais”. Após a Iluminação é hora de ajoelhar-se e esfregar, em vez de sair trombeteando ao mundo que estamos despertos e começar a ensinar antes que este trabalho seja concluído. Leia o livro e peça esclarecimentos se quiser continuar discutindo sobre isso. Essa foi a minha experiência, estou vivo e posso falar sobre ela. Se outros professores estão vivos, vá falar com eles também, e decida o que faz sentido ou não. Além disso, você me disse que o despertar não aconteceu com você, então o que importa o que outros dizem sobre o que acontece depois do despertar? Anote isso e vá fazer o que pode nesse seu momento.

—Tudo isso me faz pensar que talvez cada iluminação seja muito particular. Como se houvesse iluminações, não uma única iluminação. Ou diferentes graus de iluminação. Ou aprofundamentos de iluminação. 

O que é revelado na Iluminação, e o que é eliminado na Realização, é o mesmo para todos. Mas como a personalidade, o corpo e a alma reagem e se manifestam certamente será diferente para cada pessoa. Essa é a beleza da manifestação, e como o universo não se faz entediante, nenhum objeto é igual ao outro.

—O que quero deixar claro é que não tenho fantasias sobre perfeição ou felicidade constante, nada disso.

Você sim tem uma fantasia sobre a Iluminação e sobre que tipo de sofrimento ela remove, e essa fantasia já é suficiente para desviar sua busca. Essa fantasia não só faz a busca continuar, como também te levará sempre a becos sem saída.

Esse é um obstáculo comum para muitos aspirantes. Eles não querem fazer o trabalho e passar pela dificuldade de entender a mecânica da psique e as fraquezas da personalidade humana. Colocam todo sofrimento e dor no mesmo balaio e não sabem o que fazer com eles, porque cada um exige uma abordagem diferente. Conhecer nossas fraquezas é um requisito. Será mais rápido e fácil lidar com dor e sofrimento se você conhecer sua personalidade e as leis que operam através dela, ao invés de esperar que a Iluminação resolva tudo automaticamente—não o fará. Ser pragmático é uma vantagem. Sugiro que você questione e investigue sua visão de que não tem fantasias sobre o que deseja da espiritualidade e olhe com atenção para aquilo que a realidade está disposta a te oferecer.

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